Oficinas Terapêuticas no CAPS: Por Que São Essenciais para a Saúde Mental

Pessoas fazendo arte no caps

Sumário

As oficinas terapêuticas no CAPS são hoje um dos principais instrumentos de cuidado dentro da rede pública de saúde mental do Brasil. Portanto, entender o que elas são, como funcionam e por que importam é fundamental — seja você familiar de um usuário, profissional da saúde, educador ou simplesmente alguém interessado em compreender como o cuidado psicossocial acontece na prática.

Neste artigo, vou explorar esse tema a partir da minha experiência como facilitador de oficinas nos três CAPS de Pirassununga — e da evidência científica que sustenta essa prática.


O Que São as Oficinas Terapêuticas no CAPS

Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são serviços públicos do SUS criados para oferecer cuidado em saúde mental de forma comunitária e territorial, em alternativa à internação psiquiátrica. Dentro desse modelo, as oficinas terapêuticas ocupam um lugar central.

O Ministério da Saúde define que os serviços substitutivos tipo CAPS devem necessariamente oferecer oficinas terapêuticas, que podem ser: expressivas — espaços de expressão corporal, verbal, musical e artística —, geradoras de renda ou de alfabetização. BVS Saúde

Portanto, as oficinas não são atividades de passatempo. São dispositivos clínicos com função terapêutica reconhecida pela política nacional de saúde mental — e respaldada por uma produção científica crescente.


Por Que as Oficinas Terapêuticas no CAPS Funcionam

A eficácia das oficinas terapêuticas no CAPS não está apenas na atividade em si, mas no que ela mobiliza: vínculos, expressão, autonomia e pertencimento. Além disso, elas criam um espaço onde o sujeito pode ser mais do que seu diagnóstico.

Segundo Azevedo e Miranda (2011), as oficinas apontam para o entrelaçamento entre subjetividade e cidadania — ou seja, entrelaçamento das dimensões psíquicas e políticas do sujeito — e podem ser consideradas terapêuticas quando possibilitam um espaço de fala, expressão e acolhimento, podendo favorecer o processo de inserção social. SciELO Brazil

Isso significa que a oficina de artesanato, de música, de leitura ou de artes plásticas não é um recurso secundário. É, por vezes, o principal caminho de acesso ao sujeito que está em sofrimento.


Tipos de Oficinas Terapêuticas no CAPS

Na prática, as oficinas terapêuticas no CAPS assumem formatos variados, adaptados às necessidades de cada unidade e de seus usuários:

  • Oficinas expressivas: artes plásticas, artesanato, música, teatro, dança, escrita criativa
  • Oficinas de leitura e cultura: poesia, cordel, rodas de conversa, narrativas
  • Oficinas geradoras de renda: atividades que desenvolvem habilidades com potencial de geração de renda e autonomia
  • Oficinas de alfabetização: voltadas a usuários sem acesso à leitura e escrita
  • Oficinas de convivência: atividades que fortalecem o laço social e comunitário

A realização de oficinas terapêuticas permite a expressão de sentimentos de maneira saudável e criativa, estimulando a autoestima e a autoconfiança. Além disso, são espaços enriquecedores por promoverem a construção de vínculos entre usuários, familiares e equipe do CAPS, permitindo que tanto o familiar como o usuário reorganizem sua rotina e retornem às suas atividades na sociedade. Unb


Oficinas Terapêuticas no CAPS e a Reforma Psiquiátrica

As oficinas terapêuticas no CAPS não surgem do nada. Elas são fruto direto da Reforma Psiquiátrica Brasileira, consolidada com a Lei 10.216/2001, que redirecionou o modelo de assistência em saúde mental — do hospital psiquiátrico para o cuidado em liberdade, no território, com participação social.

Como reflexo da reconfiguração da assistência em saúde mental proporcionada pela Reforma Psiquiátrica Brasileira, as oficinas terapêuticas tornaram-se gradativamente um dos principais dispositivos de tratamento nos Centros de Atenção Psicossocial. SciELO

Portanto, quando falamos em oficinas no CAPS, estamos falando de uma prática que carrega um projeto político e ético muito maior: o de tratar pessoas com transtorno mental como sujeitos de direito, não como pacientes a serem contidos.


O Que a Psicanálise Acrescenta a Essa Discussão

A psicanálise oferece uma lente complementar importante para entender por que as oficinas terapêuticas no CAPS funcionam. Winnicott já dizia que o brincar — e por extensão toda atividade criativa — é saúde. Não é acessório. É constitutivo do desenvolvimento humano e da capacidade de simbolizar a experiência.

Quando um usuário do CAPS participa de uma oficina de artesanato e consegue criar algo com as próprias mãos, algo muda na sua relação consigo mesmo e com o mundo. Ele passa de objeto do cuidado a sujeito que produz, que cria, que tem algo a oferecer. Essa virada é clínica — mesmo que aconteça com agulha e linha.

Freud, ao falar sobre o trabalho e a cultura em O Mal-Estar na Civilização, já sinalizava que a produção criativa é uma das principais formas de sublimação — ou seja, de canalizar energia psíquica em direção a algo social e culturalmente valioso. As oficinas criam exatamente esse espaço.


A Importância do Vínculo na Oficina

Um dos aspectos mais subestimados das oficinas terapêuticas no CAPS é o vínculo que se forma no grupo. A atividade em si importa — mas o encontro importa tanto quanto.

A percepção elaborada pelos familiares é a de que as oficinas terapêuticas representam instrumentos importantes de ressocialização e reabilitação psicossocial, admitindo a importância da interação efetiva de toda a equipe de saúde aliada à cooperação no tratamento. BVS Saúde

Assim, a oficina funciona como um microcosmo social: um espaço onde o usuário pode experimentar relações de cooperação, criação coletiva, respeito à diferença e pertencimento — tudo isso dentro de um ambiente estruturado e seguro.

As oficinas terapêuticas contribuem para a ressocialização e a melhora nos relacionamentos interpessoais, parte essencial da lógica de reconstrução de subjetividades através do coletivo — uma estratégia psicossocial central no cuidado em saúde mental. BVS Saúde


Desafios que Precisam Ser Nomeados

Seria desonesto falar das oficinas terapêuticas no CAPS apenas pelos seus pontos fortes. Há desafios reais que a literatura científica e a prática cotidiana evidenciam.

Apesar dos avanços na área, encontram-se profissionais de saúde mental cujo trabalho se caracteriza pela extrema tecnificação das ações terapêuticas, com ênfase no tratamento clínico-medicamentoso. Como resultado, as ações psicossociais ficam em segundo plano, com o fechamento do trabalho nos serviços e a não inclusão social do usuário. SciELO Brazil

Além disso, há o risco de as oficinas se tornarem atividades mecânicas, repetitivas, sem intencionalidade clínica. Uma oficina de artesanato onde os participantes apenas reproduzem um modelo sem espaço para expressão própria perde grande parte de seu potencial terapêutico.

A reflexão permanente sobre o que se faz e por que se faz é, portanto, parte essencial do trabalho.


Representação de uma oficina de arte

Oficinas Terapêuticas, Arte e Saúde Mental: Um Horizonte

Nos CAPS de Pirassununga onde atuo, a oficina de artesanato que facilito tem um caráter transversal — atravessa as três unidades (CAPS I, CAPS AD e CAPS IJ) e cria pontos de contato entre usuários com perfis e histórias muito diferentes. Essa transversalidade é, em si, terapêutica: rompe o isolamento, cria pontes, humaniza o espaço institucional.

A arte — em suas múltiplas formas — é uma linguagem que não exige diagnóstico para ser falada. Ela acolhe o sofrimento sem precisar nomeá-lo, e abre caminhos de expressão que muitas vezes a palavra não consegue alcançar.

Se você quer aprofundar a relação entre arte e expressão emocional, leia também nosso artigo sobre emoção e sentimento sob a perspectiva psicanalítica e neurocientífica — e acompanhe o próximo texto desta série, onde vou explorar especificamente como a arte pode ajudar crianças com TOD a desenvolver habilidades emocionais.


Conclusão

As oficinas terapêuticas no CAPS são, portanto, muito mais do que atividades ocupacionais. São espaços de cuidado, de criação, de vínculo e de cidadania. São a expressão prática de um projeto que acredita que pessoas com transtorno mental podem — e devem — ocupar seu lugar no tecido social, com autonomia e dignidade.

Entender isso é fundamental para quem atua nesse campo. Mas também para a sociedade como um todo, que ainda carrega muitos preconceitos sobre o que é a loucura e o que é o cuidado em saúde mental.


Referências

  1. Ministério da Saúde. Saúde Mental no SUS: Os Centros de Atenção Psicossocial. Brasília: MS, 2004.
  2. Brasil. Lei 10.216, de 6 de abril de 2001. Planalto.gov.br.
  3. Azevedo, D. M.; Miranda, F. A. N. Oficinas terapêuticas como instrumento de reabilitação psicossocial: percepção de familiares. Escola Anna Nery, 15(2), 339–345, 2011. DOI: 10.1590/S1414-81452011000200017
  4. Cruz, M. P.; Monteiro, C. F. S.; Ibiapina, A. R. S. Oficinas terapêuticas em saúde mental como instrumento de reabilitação psicossocial. Rev. Enferm. UFPE on line, 10(11), 3996–4002, 2016. Disponível em: periodicos.ufpe.br
  5. Scielo Brasil. Concepções de Profissionais de Saúde Mental acerca de Atividades Terapêuticas em CAPS. Trends in Psychiatry and Psychotherapy, 2016.
  6. Scielo Brasil. As Oficinas Terapêuticas e a Lógica do Cuidado Psicossocial. Psicologia: Ciência e Profissão, 41(spe4), 2021.
  7. Morais, V. D. et al. Utilização de oficinas terapêuticas envolvendo leitura e dinâmicas como propostas de atuação multiprofissional em um CAPS. Tempus – Actas de Saúde Coletiva, 12(4), 306–319, 2023. DOI: 10.18569/tempus.v12i4.2576
  8. Winnicott, D. W. O Brincar e a Realidade. Imago, 1975.
  9. Freud, S. O Mal-Estar na Civilização. Companhia das Letras, 2010.