Psicanalistas Mulheres da Atualidade: 10 Vozes que Estão Renovando a Psicanálise

imagem de destaque de uma psicanalista mulher

Sumário

As psicanalistas mulheres da atualidade representam uma das mais potentes forças de renovação do campo psicanalítico — no Brasil e no mundo. Portanto, conhecer quem são, o que escrevem e o que pensam é fundamental para qualquer pessoa que estuda, pratica ou simplesmente se interessa pela psicanálise contemporânea.

Durante muito tempo, os rostos mais visíveis da psicanálise foram masculinos: Freud, Lacan, Winnicott, Bion. Mas o campo sempre teve mulheres essenciais — e hoje, mais do que nunca, essas vozes estão no centro dos debates mais urgentes: gênero, trauma, raça, maternidade, identidade, política e subjetividade.

Neste artigo, apresento 10 psicanalistas mulheres da atualidade — cinco brasileiras e cinco internacionais — que você precisa conhecer. A seleção considera publicações recentes, presença pública ativa, liderança institucional e relevância teórica e clínica para o momento que vivemos.


Por Que Falar de Psicanalistas Mulheres da Atualidade

Antes de apresentar as nomes, vale contextualizar. A psicanálise nasceu, como lembrou Vera Iaconelli em entrevista recente, “da escuta de mulheres ditas histéricas” — e ainda assim, por décadas, foram principalmente homens que falaram sobre a subjetividade feminina, a sexualidade da mulher e a feminilidade.

Esse quadro mudou — lentamente, mas mudou. Hoje, as psicanalistas mulheres da atualidade não apenas respondem às questões clássicas do campo. Elas ampliam o campo, inserem perspectivas antes ausentes e constroem pontes entre a clínica e questões como feminismo, antirracismo, diversidade e trauma coletivo.

Além disso, como explorei no artigo sobre emoção e sentimento sob a ótica psicanalítica e neurocientífica, a psicanálise contemporânea é necessariamente uma psicanálise que dialoga com o tempo presente — e essas mulheres fazem isso com rigor e criatividade.


Psicanalistas Brasileiras da Atualidade

1. Vera Iaconelli — A Psicanálise Que Fala Brasileiro

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Vera Iaconelli é, provavelmente, a psicanalista mulher da atualidade mais presente no debate público brasileiro. Doutora em Psicologia pela USP, diretora do Instituto Gerar de Psicanálise e colunista da Folha de S. Paulo, ela tem o raro talento de tornar a psicanálise acessível sem empobrecer o pensamento.

Seu livro Felicidade Ordinária venceu o Prêmio Jabuti 2025 na categoria Saúde e Bem-estar, reunindo textos que propõem leituras surpreendentes do cotidiano brasileiro e oferecem um retrato vívido das angústias contemporâneas. Apple Books

Em 2025, lançou também Análise: Notas do Divã — um livro memorialístico e teórico que chegou ao topo das listas de mais vendidos. Na obra, Vera revisita passagens íntimas, entrelaçando seu percurso no divã às marcas da história familiar e à construção de sua trajetória profissional. Metrópoles

Leia: Felicidade Ordinária (Zahar, 2024) e Análise (Zahar, 2025)


2. Maria Rita Kehl — Psicanálise, Política e Memória

Imagem ilustrativa de Maria Rita Psicanalista
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Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, poeta e ensaísta, autora de obras como O Tempo e o Cão — ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Não-Ficção de 2010 — e Deslocamentos do Feminino, que questiona as relações entre a mulher, a posição feminina e a feminilidade na clínica psicanalítica. Boitempo

Integrante da Comissão Nacional da Verdade e colunista frequente na imprensa, Kehl representa a psicanalista mulher que não separa o consultório do mundo. Suas reflexões sobre depressão, ressentimento, tempo e política continuam sendo referência essencial para quem pensa a subjetividade brasileira.

Leia: O Tempo e o Cão (Boitempo) e Ressentimento (Boitempo, 2020)


3. Viviane Mosé — Entre a Filosofia, a Arte e a Clínica

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Viviane Mosé é filósofa, psicanalista e poeta — uma combinação rara que se traduz em uma forma singular de pensar. Conhecida por séries televisivas e por sua presença frequente na mídia comentando educação, cultura e subjetividade, ela é uma das psicanalistas mulheres da atualidade com maior alcance fora do circuito acadêmico.

Sua contribuição central é mostrar que a psicanálise não vive só no consultório: ela é uma forma de ler o mundo, a arte, a linguagem e as relações humanas. Essa perspectiva conecta-se diretamente ao que exploramos aqui sobre psicanálise, cultura e comportamento.

Leia: Nietzsche e a Grande Política da Linguagem e os textos do projeto Ser ou Não Ser


4. Hilza Ferri — Psicanálise, Raça e Feminismo Negro

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Hilza Ferri representa uma das fronteiras mais importantes e necessárias da psicanálise brasileira contemporânea: a intersecção entre teoria psicanalítica, feminismo negro e questões de raça e colonialidade.

Autora de Psicanálise, Feminismo Negro — Possibilidades de Inscrever o Não Dito, ela parte de uma pergunta fundamental: o que acontece com sujeitos cujas experiências de sofrimento foram sistematicamente apagadas ou não nomeadas pela teoria psicanalítica clássica? Sua resposta é clínica, política e teórica — e abre caminhos essenciais para uma psicanálise mais honesta com a realidade brasileira.

Leia: Psicanálise, Feminismo Negro — e acompanhe seus cursos e debates.


5. Tania Rivera — Psicanálise, Arte e Subjetividade

Imagem representativa Tania Riveira
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Tania Rivera é uma das psicanalistas mulheres da atualidade mais relevantes no campo lacaniano e nas interseções entre psicanálise e arte. Suas contribuições teóricas circulam em instituições de formação e atualizam o pensamento lacaniano para as questões do sujeito contemporâneo.

Seu trabalho é especialmente relevante para quem atua em contextos como o CAPS — onde a arte é também clínica — ou para quem pesquisa as relações entre criatividade, subjetividade e sofrimento psíquico.

Leia: obras da série “Autores Brasileiros da Psicanálise” com capítulos de sua autoria.


Psicanalistas Mulheres Internacionais da Atualidade

6. Nancy McWilliams — A Mestra da Clínica

Nancy McWilliams é, possivelmente, a psicanalista mulher da atualidade mais lida em cursos de formação no mundo inteiro. Ex-presidente da Divisão de Psicanálise da American Psychological Association (APA), seus livros são referência obrigatória para analistas em formação.

Psychoanalytic Diagnosis e Psychoanalytic Supervision são usados em cursos de formação em dezenas de países — inclusive no Brasil. Sua capacidade de integrar trauma, feminismo e prática clínica acessível faz dela uma ponte essencial entre a teoria clássica e as demandas contemporâneas da clínica.

Leia: Psychoanalytic Diagnosis e Psychoanalytic Case Formulation (disponíveis em inglês e parcialmente traduzidos)


7. Jessica Benjamin — Reconhecimento e Intersubjetividade

Jessica Benjamin é a criadora de um dos conceitos mais citados na psicanálise contemporânea: o de reconhecimento intersubjetivo. Sua obra questiona as relações de dominação e submissão — não apenas no nível individual, mas no social e político.

Em The Bonds of Love e Beyond Doer and Done To, ela desenvolve a ideia de que o sofrimento psíquico frequentemente emerge da falha em reconhecer o outro como sujeito — e não apenas como objeto de nossos desejos ou frustrações. Esse enquadre tem implicações profundas para se pensar gênero, trauma coletivo e clínica com populações vulneráveis.

Leia: The Bonds of Love e Beyond Doer and Done To


8. Avgi Saketopoulou — Psicanálise Queer e Trauma

Avgi Saketopoulou é uma das vozes mais provocativas e atuais da psicanálise internacional. Suas obras Sexuality Beyond Consent e Gender Without Identity (em coautoria) questionam pressupostos fundamentais sobre consentimento, identidade de gênero e clínica com sujeitos LGBTQIA+.

Portanto, para quem trabalha com diversidade sexual e de gênero em contexto clínico — ou quer entender como a psicanálise pode ser aliada em vez de obstáculo nessas discussões —, Saketopoulou é leitura urgente e indispensável.

Leia: Sexuality Beyond Consent (2023) e Gender Without Identity (2022)


9. Hanna Levenson — Psicanálise Breve e Prática

Hanna Levenson é especialista em Terapia Dinâmica de Longo Prazo (TLDP) e representa uma das psicanalistas mulheres da atualidade mais influentes na formação de terapeutas e analistas nos EUA. Seus livros práticos sobre técnica e processo terapêutico mantêm a psicanálise viva e aplicável em contextos clínicos modernos.

Para profissionais que atuam em serviços públicos de saúde mental — onde o tempo de atendimento é limitado, como nos CAPS —, o trabalho de Levenson sobre abordagens dinâmicas breves oferece ferramentas reais e fundamentadas.

Leia: Time-Limited Dynamic Psychotherapy e Brief Dynamic Therapy


10. Lorna Smith Benjamin — Comportamento Interpessoal e Cuidado

Lorna Smith Benjamin é criadora da Structural Analysis of Social Behavior (SASB) e da Interpersonal Reconstructive Therapy (IRT). Sua abordagem conecta teoria interpessoal, dinâmica psicanalítica e questões de gênero — especialmente o cuidado, que historicamente recai sobre mulheres.

Sua contribuição é especialmente relevante para a clínica com transtornos de personalidade complexos e para a compreensão de padrões relacionais que se repetem entre gerações — tema que, como discutimos no artigo sobre TOD e psicanálise, aparece com frequência na clínica infantil e familiar.

Leia: Interpersonal Diagnosis and Treatment of Personality Disorders


O Que Une Essas 10 Psicanalistas Mulheres da Atualidade

Apesar das diferenças de contexto, tradição teórica e estilo, há algo que atravessa todas essas psicanalistas mulheres da atualidade: a recusa de uma psicanálise fechada em si mesma.

Todas, de formas diferentes, levam a clínica para o mundo — e trazem o mundo para a clínica. Discutem política, raça, gênero, trauma coletivo, parentalidade, identidade. Portanto, além disso, todas escrevem para além do público especializado: seus livros chegam a leitores que nunca fizeram análise, mas que encontram neles ferramentas para entender a si mesmos e o tempo que vivem.

Esse movimento de democratização da psicanálise — sem perder o rigor — é um dos traços mais marcantes da geração atual de analistas mulheres.


Conclusão

Conhecer as psicanalistas mulheres da atualidade não é apenas uma questão de diversidade representativa. É uma questão de rigor intelectual: essas vozes ampliam o campo, inserem perspectivas essenciais e constroem uma psicanálise mais honesta com a complexidade do mundo contemporâneo.

Se você é estudante, analista em formação, profissional de saúde mental ou simplesmente alguém curioso sobre como o pensamento psicanalítico pode iluminar a vida — comece por uma dessas autoras. Qualquer uma delas pode abrir portas que você não sabia que existiam.


Referências

  1. Iaconelli, V. Felicidade Ordinária. Zahar, 2024. Prêmio Jabuti 2025 — Saúde e Bem-estar.
  2. Iaconelli, V. Análise: Notas do Divã. Zahar, 2025.
  3. Iaconelli, V. Mal-estar na Maternidade. Zagodoni, 2020.
  4. Kehl, M. R. O Tempo e o Cão: a Atualidade das Depressões. Boitempo, 2009. Prêmio Jabuti 2010.
  5. Kehl, M. R. Deslocamentos do Feminino. Cosac Naify, 2016.
  6. Kehl, M. R. Ressentimento. Boitempo, 2020.
  7. Benjamin, J. The Bonds of Love. Pantheon Books, 1988.
  8. Benjamin, J. Beyond Doer and Done To. Routledge, 2018.
  9. McWilliams, N. Psychoanalytic Diagnosis. Guilford Press, 2011.
  10. Saketopoulou, A. Sexuality Beyond Consent. NYU Press, 2023.
  11. Saketopoulou, A.; Pellegrini, A. Gender Without Identity. Unconscious in Translation, 2022.
  12. Smith Benjamin, L. Interpersonal Diagnosis and Treatment of Personality Disorders. Guilford Press, 2003.
  13. Ferri, H. Psicanálise, Feminismo Negro — Possibilidades de Inscrever o Não Dito. 2023.