imagem simboliza o logo da art psic analítica

Por Que as Primeiras Sessões de Psicanálise São Tão Importantes?

Você já se perguntou o que realmente acontece nas primeiras sessões de psicanálise? Aquele período inicial não é apenas uma formalidade ou um “teste drive” para ver se você gosta do analista. Na verdade, essas primeiras conversas são fundamentais e desempenham um papel absolutamente crucial para tudo que virá depois.

Mais do que um começo: uma preparação essencial

Freud chamava esse período de “tratamento de ensaio”, enquanto Lacan preferiu o termo “entrevistas preliminares”. Mas não se deixe enganar pelos nomes: esse não é um tempo de espera ou aquecimento. É um momento de trabalho intenso, onde algo precisa se transformar para que a análise propriamente dita possa começar.

Pense assim: você não está apenas marcando consultas. Você está atravessando uma porta que separa sua vida comum do universo da análise. E para cruzar essa porta, algumas coisas precisam acontecer.

As três funções mágicas das primeiras sessões

1. Transformar sua queixa em um mistério

Quando alguém procura análise, geralmente chega com uma queixa: “sofro de ansiedade”, “tenho problemas de relacionamento”, “quero me conhecer melhor”. Mas aqui está o segredo: o analista não aceita essas queixas no “modo automático”.

O trabalho preliminar consiste em transformar aquilo que você simplesmente reclama em algo que você genuinamente questiona. É como se seu problema deixasse de ser apenas um incômodo e se tornasse um enigma fascinante que você quer decifrar.

Por exemplo: em vez de apenas sofrer com crises de ansiedade, você começa a se perguntar “por que justo isso? por que agora? o que essa ansiedade está tentando me dizer?”. Quando essa curiosidade surge, quando você passa de vítima passiva a investigador ativo do próprio mistério, algo fundamental mudou.

2. Entender a estrutura do seu funcionamento psíquico

Aqui entra um elemento técnico importante, mas vamos simplificar: cada pessoa tem uma forma particular de organizar sua vida psíquica. O analista precisa compreender qual é a sua estrutura específica — não para rotular você, mas para saber como conduzir sua análise da melhor forma possível.

É como um mapa: antes de começar a viagem, é preciso saber em que terreno você está pisando. Esse diagnóstico não é sobre dizer “você é isso ou aquilo”, mas sobre orientar o caminho que vocês percorrerão juntos. Um erro nessa compreensão pode levar a direções equivocadas e até prejudiciais.

3. Criar a conexão especial chamada transferência

Este é, talvez, o ponto mais curioso de todos. Você sabia que a psicanálise funciona através de um fenômeno chamado transferência?

Quando você procura um analista, há uma suposição implícita: “essa pessoa sabe algo sobre o que me aflige”. Você não chegaria ali se não acreditasse, de alguma forma, que o analista possui um saber sobre seu sofrimento. Essa crença, essa suposição de saber, é o motor inicial de tudo.

Mas atenção: não se trata de o analista realmente saber tudo sobre você. Trata-se de você supor que há um saber ali. E é justamente essa suposição que cria um vínculo especial, uma ligação afetiva que permite o trabalho analítico acontecer. É fascinante: o amor que pode surgir na análise não vem de uma relação pessoal comum, mas dessa transferência de saber.

O momento decisivo: a passagem para o divã

Depois dessas primeiras sessões, quando essas três funções se estabeleceram, chega o momento de decisão. O analista propõe o divã, e esse não é um detalhe decorativo.

Deitar-se no divã significa perder o contato visual face a face com o analista. Sem o olhar do outro como apoio, você é convidado a mergulhar em sua própria fala, na sua livre associação de pensamentos. É como tirar as rodinhas laterais da bicicleta: você precisa encontrar o próprio equilíbrio interno.

Essa mudança marca a transição: os preliminares acabaram, a análise de verdade começa.

Por que tudo isso importa?

As primeiras sessões realizam algo que os psicanalistas chamam de “retificação subjetiva”. Traduzindo: você deixa de ser alguém que apenas se queixa de sua vida como se fosse vítima das circunstâncias, e passa a se reconhecer como parte ativa daquilo que lhe acontece.

Não é que você seja culpado por seus problemas. É que você está, de alguma forma misteriosa, implicado neles. E reconhecer essa implicação é o primeiro passo para poder fazer algo diferente.


A metáfora perfeita: pense nas primeiras sessões como a afinação de um instrumento musical antes de um concerto. O instrumento (você) chega com seus sons e imperfeições, mas é esse processo preliminar que verifica se tudo está estruturalmente bem, ajusta a frequência, estabelece a sintonia com o maestro. Só depois disso a música pode realmente começar a tocar.

E que música será essa? Ah, isso só a sua análise poderá revelar.

Psicanalista Kaleo T.R.

Nascido no interior de São Paulo, Kaleo Terribelle Ramos, 37 anos, é psicanalista e construiu sua trajetória profissional na escuta do inconsciente e no acolhimento das ansiedades que atravessam a experiência humana. Compreendendo que os sintomas — tanto os que paralisam quanto os que impulsionam — são manifestações simbólicas que pedem elaboração, desenvolveu a Art Psic Analítica, abordagem clínica que integra a escuta psicanalítica à expressão artística como via de acesso ao inconsciente e reconstrução das narrativas pessoais.

Formado em Psicanálise, dedica-se à escuta clínica das formações do inconsciente e dos processos simbólicos que estruturam o psiquismo. Sua formação filosófica — se dá em 3,5  anos de estudos na Universidade Federal de Lavras — fundamenta sua prática com questões sobre existência, subjetividade e linguagem. Possui também capacitação pela Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS), com ênfase em saúde mental e atenção psicossocial, e atualmente expande sua atuação para o campo jurídico, com foco em mediação e conciliação — áreas que dialogam diretamente com o manejo de conflitos psíquicos e intersubjetivos.

Em sua prática clínica, Kaleo conduz atendimentos individuais e aplica os fundamentos da Art Psic Analítica em oficinas de arte expressiva no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Pirassununga-SP, onde trabalha com pessoas em sofrimento psíquico grave, facilitando processos de simbolização e elaboração através da criação artística. Também atua como voluntário em projetos sociais e ambientais, ampliando seu compromisso ético com o cuidado, a escuta e a transformação subjetiva.