O Que é o CAPS e Como as Oficinas Terapêuticas Transformam o Cuidado em Saúde Mental

Oficinas terapêuticas no caps por Kaleo Terribelle Ramos

Sumário

As oficinas terapêuticas no CAPS são, hoje, um dos recursos mais importantes do cuidado em saúde mental pública no Brasil. Portanto, entender o que é o CAPS, como ele funciona e qual é o papel central que essas oficinas ocupam dentro desse serviço é essencial — seja você usuário, familiar, estudante ou profissional da área.

Neste artigo, vou explicar o que são os Centros de Atenção Psicossocial, quais são suas modalidades, o que oferecem — com ênfase nas oficinas terapêuticas — e, especialmente, quem são os profissionais que conduzem essas atividades e por que a forma como elas são conduzidas faz toda a diferença.


O Que é o CAPS

Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são serviços públicos de saúde mental, abertos à comunidade, que acolhem pessoas em intenso sofrimento psíquico — inclusive aquelas que enfrentam situações relacionadas ao uso prejudicial de álcool e outras drogas — apoiando no dia a dia e no processo de reinserção comunitária.

Eles funcionam com equipes multiprofissionais que oferecem cuidado contínuo, acompanhamento clínico e apoio psicossocial aos usuários e a seus familiares. São serviços do SUS — portanto gratuitos — e representam um modelo radicalmente diferente do hospital psiquiátrico tradicional: o cuidado acontece no território, perto de onde as pessoas vivem, sem isolamento.

Dados oficiais do Ministério da Saúde apontam 2.209 unidades de CAPS no Brasil, oferecendo atendimentos individuais — como farmacológico e psicoterápico —, atividades em grupos — como psicoterapia, suporte social e oficinas terapêuticas —, visitas domiciliares, atendimento à família e atividades que integrem o usuário às vivências comunitárias. BVS Saúde


Modalidades de CAPS

Não existe apenas um tipo de CAPS. O serviço se organiza em diferentes modalidades, de acordo com o porte do município e as necessidades da população:

  • CAPS I — Pessoas de todas as idades com intenso sofrimento psíquico. Municípios acima de 15 mil habitantes.
  • CAPS II — Pessoas de todas as idades com sofrimento psíquico intenso. Municípios acima de 70 mil habitantes.
  • CAPS III — Funcionamento 24 horas, inclusive fins de semana e feriados, com acolhimento noturno. Municípios acima de 150 mil habitantes.
  • CAPS i — Crianças e adolescentes com sofrimento psíquico intenso. Municípios acima de 70 mil habitantes.
  • CAPSad — Pessoas em situações relacionadas ao uso prejudicial de álcool e outras drogas. Municípios acima de 70 mil habitantes.
  • CAPSad III — Idem, com funcionamento 24 horas e acolhimento noturno. Municípios acima de 150 mil habitantes.

Aqui em Pirassununga, onde atuo como facilitador, o município conta com as três modalidades — CAPS I, CAPS AD e CAPS IJ —, o que me dá uma visão transversal de como cada tipo de serviço organiza e prioriza suas atividades, inclusive as oficinas.


O Que o CAPS Oferece

Nos CAPS, o usuário encontra muito mais do que consulta médica ou prescrição de medicamento. O serviço é pensado para oferecer um cuidado integral, que considera a pessoa em sua complexidade — não apenas seu diagnóstico.

Entre as principais ofertas estão: atendimento contínuo e acompanhamento singularizado; acolhimento de crises; apoio psicológico e terapias individuais e em grupo; orientação e apoio social para inclusão em escola, trabalho e vida comunitária; e a construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS) junto ao usuário e sua família.

E, dentro de tudo isso, as oficinas terapêuticas no CAPS ocupam um lugar central — tanto pela frequência com que acontecem quanto pelo impacto que produzem na vida dos usuários.


O Que São as Oficinas Terapêuticas no CAPS

A Portaria GM/MS nº 336/2002, que regulamenta o funcionamento dos CAPS, estabelece que o atendimento em oficinas terapêuticas deve ser executado por profissional de nível superior ou de nível médio, e constitui um dos serviços obrigatórios em todas as modalidades de CAPS. BVS Saúde

Portanto, as oficinas não são atividades opcionais ou complementares. São parte constitutiva do modelo de cuidado — previstas em lei e fundamentadas em décadas de evidência clínica e científica.

As oficinas terapêuticas são mecanismos em que os usuários, por meio da manipulação de objetos, recursos artísticos, artesanais, dinâmicas de grupo, jogos, teatro e, acima de tudo, da socialização com outros usuários, trabalham seus conteúdos emocionais, expressando-os. Propiciando um espaço para autonomia e politização dos indivíduos, as oficinas são reconhecidas por permitir a aliança entre muitos aspectos necessários para a recuperação psicossocial. CENAT


Tipos de Oficinas Terapêuticas no CAPS

As oficinas terapêuticas no CAPS assumem formatos variados, adaptados à realidade de cada unidade e às necessidades de seus usuários. De modo geral, organizam-se em três grandes categorias:

  • Oficinas expressivas: artes plásticas, artesanato, música, teatro, dança, escrita criativa, poesia. São as mais comuns e as que mais dialogam com a dimensão simbólica do sujeito.
  • Oficinas geradoras de renda: atividades que desenvolvem habilidades com potencial de geração de renda e autonomia — costura, marcenaria, culinária, entre outras.
  • Oficinas de alfabetização e convivência: voltadas a usuários sem acesso à leitura e escrita ou com foco no fortalecimento do laço social e comunitário.

Nas unidades em que trabalho, a oficina de artesanato que facilito tem um caráter transversal — atravessa os três CAPS de Pirassununga e cria pontos de contato entre usuários com perfis, histórias e diagnósticos muito diferentes. Essa transversalidade, por si só, já tem valor terapêutico: rompe o isolamento e cria pontes entre mundos que dificilmente se cruzariam de outra forma.


Quem Conduz as Oficinas Terapêuticas no CAPS

Essa é uma das questões mais importantes — e menos discutidas — sobre as oficinas terapêuticas no CAPS: quem são os profissionais que as conduzem e qual é o seu papel?

A equipe profissional do CAPS deve ser composta por médicos com formação em saúde mental, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, pedagogos, técnicos e auxiliares de enfermagem, técnicos educacionais e artesãos. BVS Saúde

Sim: artesãos fazem parte da equipe mínima prevista pelo Ministério da Saúde. Isso é um dado importante que muita gente desconhece — e que revela que o CAPS reconhece formalmente que o cuidado não é exclusividade do técnico de nível superior.

As oficinas terapêuticas podem ser conduzidas por profissionais da psicologia, terapeutas ocupacionais ou educadores, e têm como objetivo proporcionar um espaço seguro onde os indivíduos possam explorar suas emoções, compartilhar experiências e desenvolver habilidades sociais. Lilian Saturnino

Na prática, portanto, os facilitadores das oficinas terapêuticas no CAPS são profissionais variados: psicólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros, assistentes sociais, pedagogos, educadores físicos, profissionais das artes e artesãos. O que os une não é a formação específica, mas a disposição para uma escuta qualificada e uma prática intencional.


O Papel do Facilitador: Muito Além da Atividade

Um dos achados mais importantes da literatura científica sobre oficinas terapêuticas no CAPS é que a atividade em si não é o que cura — é a relação.

A relação entre profissional e usuário, com o contrato entre ambos e a aposta na melhora do sofrimento psíquico, ocupa o primeiro plano na proposta terapêutica. A atividade é facilitadora desse processo. A relação é terapêutica, e não a atividade — sendo necessária uma relação triádica: usuário–atividade–terapeuta. SciELO Brazil

Isso significa que um facilitador de oficina que apenas distribui material e aguarda o resultado não está conduzindo uma oficina terapêutica — está conduzindo uma atividade ocupacional. A diferença é enorme, e ela reside na qualidade da presença do profissional: sua capacidade de escutar, perceber, acolher e intervir com intencionalidade clínica.

O profissional que conduz a oficina deve ter a capacidade de escutar e perceber o que os usuários estão querendo dizer. Há aqueles que se comunicam pela escrita, pela arte, pela identificação — entre outros elementos — e o facilitador precisa estar atento a essas diferentes linguagens. CENAT


O Risco da Oficina Vazia de Sentido

Seria desonesto falar das oficinas terapêuticas no CAPS sem nomear um risco real que a literatura aponta com clareza.

Nem tudo, em todos os CAPS do Brasil, ocorre como deveria. Um dos aspectos que merece atenção diz respeito ao mau planejamento das atividades de oficinas, que de algo a ser realizado com objetivos terapêuticos bem estruturados acaba sendo reduzido a momentos de simples ocupação de tempo por parte dos usuários. CENAT

Além disso, ainda persiste em alguns serviços a ideia de que a iniciativa deve partir exclusivamente dos técnicos, enquanto os usuários ocupam o lugar de espectadores — o que contradiz diretamente o princípio do protagonismo que é central na Reforma Psiquiátrica.

Dependendo da coordenação, as oficinas podem ser norteadas de modo indevido por uma racionalidade mais próxima do paradigma clássico da psiquiatria do que da lógica do cuidado psicossocial preconizada pela Reforma Psiquiátrica Brasileira. Daí a relevância de pesquisas e reflexão permanente sobre quem conduz as oficinas e como o faz. SciELO


Como Chegar ao CAPS

Se você ou alguém próximo precisa de cuidado em saúde mental, o acesso ao CAPS é simples e gratuito pelo SUS. Existem dois caminhos principais:

Procura direta: você pode ir até o CAPS da sua região e solicitar atendimento. Os CAPS funcionam em regime de porta aberta — não é preciso marcar consulta para o primeiro acolhimento.

Encaminhamento: também é possível chegar por encaminhamento de Unidades Básicas de Saúde (UBS), hospitais gerais, SAMU 192, UPA 24h ou serviços de assistência social, educação ou justiça.

Na chegada, a equipe faz um acolhimento inicial, avalia as necessidades e, se o usuário for inserido no serviço, elabora o Projeto Terapêutico Singular (PTS) — um plano de cuidado construído junto com a pessoa e, quando necessário, com sua família.

Para localizar o CAPS mais próximo, procure a Secretaria de Saúde do seu município ou a UBS da sua região.


Conexões com Outros Serviços

O CAPS não funciona sozinho. Ele integra a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e articula seu trabalho com Unidades Básicas de Saúde, hospitais gerais, Unidades de Acolhimento (UA), Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT) e serviços de urgência e emergência como o SAMU 192 e as UPAs.

Essa articulação em rede é fundamental para que o cuidado seja contínuo — e não se interrompa nos momentos de crise. Além disso, para aprofundar a compreensão sobre o impacto das oficinas expressivas na saúde mental de crianças e adolescentes, leia também o artigo sobre TOD e como a arte pode ajudar crianças a lidar com emoções — tema do próximo artigo desta série.

E se quiser entender melhor a base teórica que orienta o cuidado psicossocial, o artigo sobre oficinas terapêuticas no CAPS e reabilitação psicossocial aprofunda esses fundamentos.

Descubra Como a Rede de Atenção Psicossocial Realmente Funciona!
Fonte: Enfermagem Esquematizada

Conclusão

As oficinas terapêuticas no CAPS são muito mais do que atividades de grupo. São dispositivos clínicos, políticos e éticos — expressão de um projeto que acredita que pessoas em sofrimento psíquico têm direito a cuidado próximo, humanizado e que respeite sua singularidade.

O CAPS, como estrutura, oferece esse espaço. Mas o que o torna vivo são as pessoas que o habitam: os profissionais que escolhem estar presentes com intencionalidade, os usuários que arriscam se expressar e os familiares que aprendem a olhar diferente.


Referências

  1. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 336, de 19 de fevereiro de 2002. Regulamenta o funcionamento dos CAPS.
  2. Ministério da Saúde. Saúde Mental no SUS: Os Centros de Atenção Psicossocial. Brasília: MS, 2004.
  3. Scielo Brasil. As Oficinas Terapêuticas e a Lógica do Cuidado Psicossocial. Psicologia: Ciência e Profissão, 41(spe4), 2021.
  4. Scielo Brasil. Concepções de Profissionais de Saúde Mental acerca de Atividades Terapêuticas em CAPS. Trends in Psychiatry and Psychotherapy, 2016.
  5. Pepsic. Práticas desenvolvidas por psicólogos em serviços de atenção psicossocial: revisão de literatura. 2019.
  6. Blog Cenat. As Oficinas Terapêuticas: Uma abordagem alternativa dos CAPS em favor da Saúde Mental. 2019.
  7. REME. A atuação do enfermeiro nos centros de atenção psicossocial à luz do modo psicossocial.
  8. Winnicott, D. W. O Brincar e a Realidade. Imago, 1975.
  9. Brasil. Lei 10.216, de 6 de abril de 2001. Lei da Reforma Psiquiátrica.