Exercer uma prática que coloca o ser humano no centro do setting analítico. Para mim, a psicanálise da teoria ao humano não é apenas um slogan clichê — é uma posição ética.
Minha escuta parte do arcabouço construído por Freud, Lacan, Winnicott, Panksepp e outros pensadores e pensadoras fundamentais. No entanto, jamais perco de vista aquilo que realmente importa: o sujeito singular que ocupa o divã — ou, nos atendimentos online, o outro lado da tela.
Nesse sentido, a teoria é lanterna, não lei.
Psicanálise da teoria ao humano: o que isso significa na prática
No cotidiano clínico, vivo uma tensão constante entre dois polos:
De um lado, a necessidade de conhecer profundamente a teoria psicanalítica — o inconsciente, a transferência, os mecanismos de defesa, as estruturas clínicas.
De outro, a capacidade de suspender esse saber no exato momento em que o paciente fala. Suspender aqui não é eliminar, mas sim dar espaço ao novo saber que se forma.
Ao longo da minha trajetória, com formação em Psicanálise Clínica e Mediação de Conflitos, atuando tanto na clínica privada quanto em equipamentos do CAPS em Pirassununga (SP), desenvolvi uma convicção central:
o ser humano sempre excede a teoria que tenta descrevê-lo.
E isso não é relativismo — é rigor ético.
“Eu preciso conhecer profundamente a teoria, mas jamais posso me fechar ao conteúdo vivo que o paciente produz.”
– Kaleo T. R.

Da teoria à escuta singular
A própria história da psicanálise revela esse movimento. Freud revisou constantemente suas formulações — das primeiras histéricas até a segunda tópica (id, ego e superego).
A psicanálise nasceu justamente do encontro com aquilo que não cabia nas categorias existentes.
É essa postura que sustento na minha prática.
No trabalho com os diferentes núcleos do CAPS (I, AD e IJ) de Pirassununga-SP, facilitando oficinas terapêuticas de arte e acompanhando casos de alta complexidade psicossocial, opero com múltiplas referências da literatura psicanalítica.
Mas nenhuma dessas teorias se torna uma camisa de força.
A teoria entra como ferramenta de escuta — nunca como sentença.
Isso tem consequências diretas:
- não reduzo o sujeito a um diagnóstico CID
- não o limito a uma estrutura clínica
- não antecipo quem ele é antes de ouvi-lo
Antes de tudo, tenho diante de mim alguém que fala — e que espera ser escutado para além de qualquer rótulo.
O setting analítico como espaço de equilíbrio
Para mim, o setting analítico não é apenas um conjunto de regras. Ele é um espaço de sustentação.
Ele protege o paciente — e protege o próprio processo.
Esse enquadre garante dois movimentos fundamentais:
- que a teoria não invada o espaço do sujeito
- que o sujeito não dissolva o processo em demandas que impedem a elaboração
Essa posição dialoga diretamente com o conceito de holding, de Winnicott: sustentar sem aprisionar.
Por isso, entendo que a prática clínica exige uma dupla competência:
Erudição e presença.
Saber e ser.

Minha escuta integrada: psicanálise, arte, neurociência, cultura, ambiente e organização
Uma das marcas do meu trabalho é aquilo que chamo de escuta integrada.
Articulo campos:
- psicanálise clássica
- arte
- neurociência contemporânea
- ambiente
- cultura
Sem permitir que um saber colonize o outro.
Essa integração também orienta meus conteúdos no blog, sempre atravessados por uma pergunta central:
o que isso revela sobre o humano concreto que está diante de mim?
Essa pergunta, por si só, já é uma posição clínica.
Ela rompe com o conforto das certezas e mantém aberta a possibilidade de que o sujeito diga algo que ainda não sabe sobre si.
É nesse espaço que a psicanálise acontece.
Por que esse equilíbrio importa?
A psicanálise é um campo marcado por escolas, disputas teóricas e, muitas vezes, dogmatismos.
Diante disso, sustento uma posição simples — e radical:
“a teoria existe para servir ao humano, não o contrário.”
Isso não significa abrir mão do rigor.
Significa colocá-lo a serviço do encontro clínico.
A psicanálise da teoria ao humano é, antes de tudo, uma escolha ética.
É reconhecer que o sujeito nunca é apenas um caso.
Nunca é apenas um diagnóstico.
É sempre alguém que precisa ser encontrado na sua singularidade — por um analista que saiba escutar… e também silenciar suas próprias teorias quando necessário.
Referências
Freud, S. (1912). Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise.
Winnicott, D. W. (1960). The theory of the parent-infant relationship.
Lacan, J. (1964/1998). Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.
Solms, M. & Turnbull, O. (2002). The Brain and the Inner World.
Klein, M. (1952). Developments in Psycho-Analysis.
Panksepp, J. (1998). Affective Neuroscience.





